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Um encontro por Pessoa

Em entrevista ao Correio, Cleonice Berardinelli, maior especialista do poeta no Brasil, fala sobre a amizade com Maria Bethânia, outra admiradora do escritor, que resultou em um DVD (por Irlam Rocha Lima)

Cleonice Berardinelli foi apresentada a Maria Bethânia pelo professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) Júlio Diniz quando ele a levou ao Canecão, em 1995, para assistir ao show da cantora, Imitação da vida. O que as aproximou foi a paixão de ambas pela obra de Fernando Pessoa, o poeta português, do século 19, com forte presença na obra das duas.

O desdobramento da amizade, surgida naquela extinta casa de espetáculos carioca, trouxe ótimos frutos. Em 2013, elas se apresentaram em recital na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e exibiram conhecimento de causa: Dona Cléo, 98 anos, imortal da Academia Brasileira de Letras, na condição de maior especialista em Pessoa no Brasil; e Bethânia, que ao longo de 50 anos de carreira, popularizou a obra do lusitano, incluindo versos de poemas no roteiro dos shows e no repertório de discos.

Logo depois, a leitura foi filmada no estúdio da gravadora Biscoito Fino, durante dois dias, pelo diretor Marcio Debellian. No filme, ele faz a costura dos poemas com conversa sobre a obra de Pessoa, ressaltando aspectos da personalidade de seus heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.

Na gravação, o clima de intimidade e humor foi determinante para a interação entre a professora carioca e a artista baiana, e contribuiu para pontuar o ritmo e a fluidez do roteiro. Houve, ainda, a apropriação de trechos da carta na qual o próprio Pessoa explica a gênese de seus heterônimos ao também poeta Adolfo Casais Monteiro.

Sob o título O vento lá fora, o documentário filmado em preto e branco, tem duração de 64 minutos, com trilha sonora que traz o pianista Nelson Freire interpretando trechos de obras de Liszt e Schumann e composições de Egberto Gismonti, executadas em flauta e violino, além de uma pequena participação de Bethânia ao piano.

“Desde que conheci a professora Cleonice depois de um show meu no Canecão, há quase 20 anos, ficamos próximas. O nosso amor por Fernando Pessoa fez a amizade solidificar-se e culminou com documentário O vento lá fora, no qual ela demonstra total naturalidade diante das câmeras”, comenta Bethânia. “A ideia éque o filme chegue a alunos de escolas públicas e seja utilizado como material didático”, acrescenta.

Em cartaz atualmente em cinemas do Rio de Janeiro — onde foi exibido inicialmente, no Rio International Film Festival — e em São Paulo, O vento lá fora, segundo Debellian, tem como foco principal a palavra, a poesia.“O meu desejo é que as pessoas sintam as palavras, ditas por duas intérpretes carismáticas, que estão irretocáveis, numa química cênica muito bonita. Mas a grande senhora da cena é a poesia de Fernando Pessoa”, completa.

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Dona Cléo, qual o elixir que a faz tão disposta e tão produtiva?
Respondo sempre a esta pergunta, que frequentemente me fazem, dizendo: o segredo é que sempre trabalhei naquilo de que gosto muito e por isso o faço com paixão.

Quando se deu o primeiro contato da senhora com a obra de Fernando Pessoa
Devo a meu grande amigo e, àquele tempo, professor catedrático, Thiers Martins Moreira, o presente de uma antologia de Fernando Pessoa feita por Adolfo Casais Monteiro, um breve livro que Thiers me apresentou quase dramaticamente, perguntando-me: ‘ que acha deste poeta?’. Não acho nada, porque nunca o li. A resposta o levou a apontar-me o indicador, acrescentando com energia: ‘Uma falha na sua formação intelectual. Leve o livrinho, leia-o e venha conversar comigo’. Foi o que fiz e continuei a fazer pela vida afora, até ao recente lançamento do meu livro Fernando Pessoa — antologia poética, seguida de ensaios meus sobre sua obra, à qual antepus uma dedicatória justa e afetuosa: A Thiers Martins Moreira, eternamente grata pelo mágico veneno que me inoculou, ao pôr-me nas mãos, pela primeira vez, os versos de Fernando Pessoa, deponho aqui minha homenagem.

O que a levou a interessar-se pela obra do poeta, a ponto de tornar-se a maior autoridade brasileira no legado dele?
O que me levou ao interesse e paixão pela obra de Pessoa foi a qualidade indiscutível de seus versos, a pluralidade de suas vozes, os diálogos entre elas mantidos, o que constitui o seu drama em gente ou em almas, como ele mesmo definiu.

Entre os heterônimos de Pessoa, há aquele que tem a sua preferência?
Acho difícil dar esta resposta. Tenho a sensação que deve ter uma mãe a quem perguntam de qual dos filhos gosta mais. A minha resposta é: aquele que estou lendo no momento.

Como se deu o encontro com Maria Bethânia, outra devota do poeta?
Nosso primeiro encontro deu-se com a participação de meu ex-aluno e atual colega, Júlio Diniz, amigo de longa data de Bethânia que, já encantada por Fernando Pessoa, planejava apresentar, no Canecão, um espetáculo em que ela cantaria versos de Pessoa. Júlio Diniz, chamado por ela para dar-lhe apoio nas escolhas, falou-lhe sobre sua ex-professora, Cleonice Berardinelli, especialista no assunto. Bethânia nos convidou então para o espetáculo, que foi um sucesso, como era de se esperar. Ao fim do espetáculo, fomos cumprimentar Bethânia no camarim — foi este o nosso primeiro encontro.

Levar a obra de Pessoa a público, como na Flip de 2013, foi algo que lhe agradou?
Agradou-me imensamente ver uma enorme plateia pôr-se de pé para aplaudir-nos, a Bethânia e a mim.

A senhora se sente uma popstar, ao protagonizar o documentário O vento lá fora, ao lado de Bethânia?
Não direi que me sinto, mas é verdade que me estão friccionando o ego, todos me ligam para dizer coisas amáveis sobre o filme…

O conteúdo do filme é exatamente o que a senhora gostaria de ver no roteiro do filme?
Não tive a pretensão de que saísse tão bom. Estou muito feliz

Como foi para a senhora ser dirigida por Márcio Debellian?
Foi uma revelação. Não conhecia o seu trabalho e agora sinto que não poderia ser melhor. Nossa mútua simpatia nos aproximou naturalmente e a sua direção nunca se fez de cima para baixo – do diretor para a dirigida –, mas lado a lado, com mútuo interesse, mútuo apoio. Enfim, digo que, de minha parte, foi um prazer ininterrupto a participação nesse filme, que deu tão certo.

 



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