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Pequeno antídoto para tempos superficiais

As duas formam uma dupla e tanto. Se Bethânia é a estrela, Cleonice Berardinelli é quem conduz o jogo (Luiz Zanin Oricchio)

O – vamos chamá-lo assim – “dispositivo cinematográfico” é bem simples. Duas mulheres em um estúdio, dizem verses de Fernando Pessoa.

Desse jeito pode ser descrito, de modo sumário, O Vento Lá Fora, de Marcio Debellian.

Quem as mulheres? Uma delas é muito conhecida, famosa, como só costumam ser no Brasil os jogadores de futebol, os astros da TV e os intérpretes da música popular. Trata-se de Maria Bethânia, irmã de Caetano Veloso, que se lançou na cena nacional desde os tempos do show Opinião. Como sabem seus fãs, Bethânia também é responsável por uma mania nacional de Fernando Pessoa, ao interpretar versos do poeta em seus shows e gravá-los num disco antológico, Rosa dos Ventos.

A outra é uma estudiosa de literatura, a professora universitária da UFRJ Cleonice Berardinelli, que começa a ficar conhecida fora dos círculos acadêmicos pela vivacidade intelectual que demonstra no apogeu dos seus 98 anos.

As duas formam uma dupla e tanto. Se Bethânia é a estrela, a outra é quem conduz o jogo. Amparada tanto em seu imenso e nada empertigado conhecimento de Pessoa, como na sabedoria como escande os versos, atenta ao ritmo e à métrica, Cleonice é quem dá as cartas. O filme é tanto sobre Pessoa como sobre ela.

Há no dispositivo, um desafio, ao qual as duas se aplicam em enfrentar. Reviver, pela voz, o que está no papel. Reviver? Melhor seria falar: fazer viver, pois, como alguém já disse, a grande poesia aspira a ser dita em voz alta. Se existe prazer inegável em lê-la impressa na folha, na intimidade do pensamento, é na voz humana que ganha em emoção. O verso impresso é como a partitura da música, que pode ser apreciada na pauta pelos conhecedores, mas só se torna audível quando executada pelos instrumentos. As cordas vocais humanas são o instrumento da poesia.

Há outro aspecto. Trata-se aqui de um filme e não de uma gravação. Desse modo, a câmera incorpora-se à linguagem buscada pela voz e encontro nos rostos das duas personagens o acréscimo de sentido daquilo que se lê e ouve. Se é do tempo que se fala quase na totalidade, este se inscreve nos rostos. Sim, o trabalho do tempo no rosto humano – fobia do mundo contemporâneo em sua obsessão de eterna juventude – e que aqui é exposto com serenidade. Em consonância com o duro humanismo daquilo que Pessoa e seus heterônimos legaram. Não há porque temer o tempo, apenas abandonar-se ao seu devir.

Há também esse lado suavemente didático, quando Cleonice com seu conhecimento profundo do autor, fala de Pessoa e das particularidades dos heterônimos, Álvaro de Campos (“o divã do poeta, dizendo aquilo que ele não tem coragem de dizer”), o lírico Ricardo Reis, Alberto Caeiro (“o mestre”).

Desse modo, O Vento Lá Fora, é, por um lado, uma aula cheia de frescor, que passa conhecimentos. Mas muito mais do que isso, é sensibilização do espectador para a concretude da poesia quando dita e meditada. Um belo filme, pequeno antídoto para tempo apressados, superficiais e grosseiros.

 



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