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A palavra sentida de Fernando Pessoa

A professora Cleonice Berardinelli e a cantora Maria Bethânia recitam Pessoa no filme que foi revelação no Festival do Rio (por Tiago Germano)

No estúdio, o diretor Marcio Debellian tinha diante de si duas damas: Cleonice Be rardinelli, maior especialista brasileira da obra de Fernando Pessoa (1888-1935), e Maria Bethânia, a voz que melhor cantou alguns de seus poemas. “Só o que eu tinha a fazer era tentar ser o mais discreto possível para não atrapalhar as duas”, brinca o diretor do documentário (o vento lá fora) (Selo Sesc/Quitanda, R$ 49,90).

O filme, uma das revelações do Festival do Rio, em outubro, acaba de sair em uma edição luxuosa que reúne o DVD e o CD com o registro da leitura dos poemas feita pela dupla que se encontrou pela primeira vez no ano passado para a abertura da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O novo encontro foi presenciado por uma plateia seleta e revela-se agora ao público na cuidadosa fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro e na trilha sonora de Nelson Freire e Egberto Gismonti (com participação da própria Maria Bethânia ao piano).

“Eu queria uma estética bem minimalista que desse destaque à palavra e à poesia”, explica Marcio Debellian, que coroa um trabalho de diálogo com o verso iniciado com o filme Palavra (En)cantada (2009), da diretora Helena Solberg, cujo roteiro ele assina. “A fotografia em preto e branco caía muito bem com a atmosfera do estúdio, fazendo o escuro parecer uma ‘caixa-preta cênica’. Não queria que nada do visual tirasse a atenção da palavra.”

Atenção na palavra: um feito quase impossível tendo em cena o carisma de Dona Cleonice e a presença ilumina da de Bethânia, que segundo Debellian foi quem introduziu o diretor (formado em economia com passagem pelo teatro) no desassossego do ‘poeta fingidor’. “Me apaixonei pelo Fernando Pessoa no Imitação da Vida”, diz ele, referindo -se ao show que a diva fez no Canecão com o repertório do álbum duplo de 1997, cheio de referências a Pessoa. “Aquilo abriu um clarão e uma necessidade enorme do Pessoa na minha vida. Desde então a palavra tem sido o cerne de minhas pesquisas artísticas.”

Exemplo disso é o espetáculo Palavras Cruzadas, que dirige desde 2012 e que promove uma interação entre artistas da palavra, da música e da imagem. No próximo ano, o projeto vai percorrer o Brasil com previsão de chegar ao Nordes te. Debellian está por trás também da reedição do livro Maria Bethânia Guerreira Guerrilha (1968), de Reynaldo Jardim, lançado em 2011 pela Mobile Editorial.

“A Bethânia é a primeira estaca, o primeiro pilar da minha formação”, derrete -se o discípulo, que credita a Cleonice Berardinelli o principal material bibliográfico de que se valeu para conduzir a pesquisa de (o vento lá fora): a antologia poética organizada pela imortal da Academia Bra sileira de Letras em 2012.

“Usei muito a antologia como referência, além de uma fotobiografia de Maria José Lancastre e toda a obra poética dele, que eu tenho”, revela o pesquisador, cuja principal motivação era acentuar o caráter dramático dos vários heterônimos do poeta português. “Este conceito me norteou muito. Pessoa é lido como se um texto dramático estivesse sendo encena do, com uma dramaturgia própria e uma comunicação entre os poemas. Há também uma relação com o universo do autor que traz um Pessoa que muita gente não conhece. A gente embarca na imaginação dele, o que o torna ainda mais interessante e não cai no didatismo.”

Os manuscritos, cartas e imagens raras incluídas no filme nos mostram um Pessoa ‘sem máscaras’ (para fazer referência ao poema de Álvaro de Campos incluso na contra capa do DVD). A criança que já escrevia aos sete anos e já forjava seu primeiro heterônimo (Chevalier de Pas) é um protagonista do documentário. “Eu não queria a imagem clássica do Fernando Pessoa de monóculo e chapéu, andando por Lisboa”, justifica o diretor. “Me interessava a criança dentro dele, que acessou seus heterônimos. Acho também que o filme fala de tempo, e foi lindo ver a exuberância de Dona Cleo, falando do passa do que soube viver do alto dos seus 98 anos.”

É em um momento destes que a câmera fica em plano aberto e o espectador pode ver as reações das duas leitoras a cada nuance do poema lido. “O plano aberto fica nelas o tempo todo”, descreve Marcio Debellian, lembrando a emoção que presenciou na hora. “Eu queria que as pessoas vissem as duas sentindo cada palavra lida ali.”

 



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